Uma reflexão necessária sobre identidade, esporte e sociedade.
Eu acreditei no hexa. Sempre vou acreditar. Mas, diante de mais uma eliminação, convoco todos vocês a uma reflexão mais profunda.
Se eu perguntar qual jogo mais te empolgou nesta Copa do Mundo, há uma grande chance de a resposta ser Argentina contra Cabo Verde. Mas por quê? A resposta é simples: vimos um país sem o mesmo peso financeiro jogar com a alma, movido puramente pelo orgulho de sua bandeira. O Brasil já jogou assim. Infelizmente, muitos de nós mal conseguem se lembrar dessa época.
Perder uma Copa do Mundo é doloroso. No entanto, o momento exige que revisemos o que — e quem — estamos idolatrando. Gostaria de pontuar alguns aspectos cruciais:
1. O papel da mídia e a alienação:
A mesma engrenagem midiática que constrói ídolos em seus clubes europeus é a que lucra com a audiência. Até aí, compreensível; afinal, o mercado vive disso. O problema central somos nós, brasileiros, vivermos em função dessa ilusão. De certa forma, eu compreendo esse comportamento: se não nos mobilizamos pelas grandes causas estruturais do nosso país, iríamos nos mobilizar pelo futebol? Acabamos apenas seguindo o fluxo desenhado pela mídia.
2. A realidade da base e o êxodo precoce:
Trabalho há anos com o esporte. Vivencio diariamente o sacrifício que pais e famílias fazem pelo sonho dos filhos no futebol — e apoiar essa luta é legítimo.
Mas façamos um exercício de empatia e realismo: se você tivesse a oportunidade de sair do país antes dos 20 anos, ganhar milhões e garantir seu futuro, como olharia para trás? Você veria uma nação que, estruturalmente, vira as costas para milhares de jovens talentos. Ao ser convocado para o que muitos chamam de “guerra” (a Copa do Mundo), você colocaria em risco o seu maior patrimônio — o seu corpo e a sua carreira? Provavelmente não.
Nós, a população, ainda acreditamos no Brasil. Mas será que o sistema esportivo do país acredita de volta na sua base?
3. A mercantilização do atleta:
Como tratamos o esporte nacional? Exportamos talentos como quem exporta commodities, como o petróleo. A diferença é que, do outro lado da balança, estamos lidando com seres humanos. Representatividade vai muito além de contratos milionários. Personalidade está ligada à sua raiz, ao lugar de onde você veio. Já o caráter é algo que se molda ao longo da vida.
Recentemente, observei a cobertura esportiva televisiva e notei que as atenções estavam voltadas quase exclusivamente para atletas estrangeiros, como Haaland. A energia que consumimos é aquela que nos é transmitida. Se as palavras e as imagens têm poder, o que estamos alimentando na mente dos nossos futuros atletas?
4. A busca pela identidade perdida:
Tive o privilégio de ver o Brasil ser campeão em 1970, 1994 e 2002. Sei o sabor da vitória e, por isso, encaro a derrota com serenidade.
Não sou refém da grande mídia. Torço pelo Brasil, mas precisamos analisar o real motivo de estarmos estagnados.
Fica o questionamento: se jogássemos com um elenco formado por atletas que atuam no futebol nacional, perderíamos também? Talvez. Mas e se perdêssemos resgatando a nossa verdadeira identidade?
Você sentiu alguma conexão real com as últimas seleções que nos representaram?
O verdadeiro legado:
Se há um ponto positivo a ser destacado nesta Copa, ele não veio dos grandes estádios, mas sim da nossa comunidade.
Faço um justo reconhecimento à nossa cidade de Ceres, que realizou um investimento inédito na Praça Cívica. Ali, sim, vimos a verdadeira essência do esporte: um ambiente totalmente pacífico e acolhedor, que reuniu famílias, amigos e resgatou o espírito de união que o futebol profissional acabou perdendo pelo caminho.
O futebol pode não ter voltado para casa, mas a nossa comunidade mostrou onde mora a verdadeira vitória.
